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O São Paulo é a Brasília do Futebol


Quando a política passa a ocupar mais espaço do que o futebol, algo está profundamente errado no clube.


Salve, nação tricolor.

 

Segundo o ditado, todo povo tem os políticos que merece. Não sei se isso é verdade, mas uma coisa é certa: nos últimos anos, a política do São Paulo deixou de ser um assunto exclusivo dos conselheiros e passou a fazer parte da rotina do torcedor comum.

 

E isso, por si só, já diz muita coisa.

 

Durante décadas, o torcedor comum acompanhou eleições, disputas internas e acordos políticos como um espectador distante. O interesse era só pelo futebol. Quem vivia a política do clube parecia importar pouco para quem estava na arquibancada ou no sofá.

 

Mas algo mudou. O torcedor comum resolveu participar.

 

A "turma do sofá", muitas vezes criticada por acompanhar o clube só pela televisão ou pelas redes sociais, se viu obrigada a agir e descobriu que também podia influenciar os rumos do São Paulo. E influenciou.

 

Vieram as cobranças. Belmonte deixou o clube. Muricy saiu do departamento de futebol. Rui Costa também encerrou sua passagem. Mas a pressão não parou nos nomes conhecidos pela massa.

 

Pela primeira vez, dirigentes e conselheiros que boa parte da torcida sequer conhecia passaram a ocupar espaço no debate tricolor. Uns por serem alvo de investigações, outros por responderem a processos internos, outros pelas decisões tomadas na condução do clube. Nelsinho, Márcio Carlomagno, Douglas Schwartzmann, Mara Casares, Dedé, Olten Ayres... nomes que antes viviam restritos aos bastidores passaram a ser conhecidos por milhares de são-paulinos.

 

A pressão chegou também ao ex-presidente Júlio Casares. Respondendo a um processo na Comissão de Ética do clube, renunciou ao cargo de conselheiro. Mesmo assim, o procedimento disciplinar teve continuidade e poderá resultar nas sanções previstas pelo Estatuto, caso os órgãos competentes entendam que elas são cabíveis.

 

Na minha opinião, se não existissem as redes sociais e a mobilização da chamada "turma do sofá", muitas dessas discussões seriam restritas aos corredores do Morumbis. O torcedor comum dificilmente teria acompanhado tudo o que acontece no clube.

 

Mas essa participação também revelou algo preocupante.

 

Foi nesse momento que comecei a enxergar o São Paulo como a Brasília do futebol brasileiro.

 

E não estou falando da capital planejada, da arquitetura ou da importância política da cidade.

 

Falo da sensação de que o debate político passou a ocupar mais espaço do que o próprio futebol.

 

O torcedor passou a acompanhar investigações, processos internos, sessões da Comissão de Ética, reuniões do Conselho Deliberativo, recursos, pedidos de afastamento, disputas entre grupos políticos e notícias que, há poucos anos, pareciam completamente distantes da realidade de um clube de futebol.

 

Alguns investigados apresentam suas versões e exercem seu direito de defesa. Outros afirmam que desconheciam determinados fatos. Enquanto isso, novas notícias surgem, documentos aparecem, áudios são divulgados e o ambiente político continua alimentando dúvidas e desconfianças.

 

Não cabe a mim dizer quem é culpado ou inocente. Essa é uma responsabilidade das autoridades competentes e dos órgãos internos do clube.

 

Mas cabe ao torcedor dizer como tudo isso é percebido.

 

E, para muitos são-paulinos, ficou a impressão de que quase toda decisão do clube acaba envolvida por disputas políticas, suspeitas, investigações ou questionamentos. Ainda que muitas delas possam nunca resultar em condenações, o simples fato de ocuparem tanto espaço no noticiário já provoca um desgaste enorme na imagem institucional do clube.

 

É justamente isso que mais me preocupa.

 

Sempre repeti uma frase que virou quase um mantra:

 

"No São Paulo, a pior gestão é sempre a próxima."

 

Hoje vejo uma verdadeira disputa pelo poder.

 

Uma oposição que durante muito tempo parecia incapaz de competir passou a enxergar uma oportunidade real. Ao mesmo tempo, setores da situação buscam reorganizar suas forças para manter influência na condução do clube.

 

Isso faz parte da democracia.

 

O problema começa quando a política passa a consumir mais energia do que o futebol, porque, enquanto todos brigam pelo poder, quem está cuidando do futebol?

 

Essa é a pergunta que importa.

 

No fim das contas, nenhum dirigente, situação ou oposição será maior do que o escudo que carregamos no peito e que tanto amamos.

 

Que a política cumpra seu papel de fiscalizar, corrigir e responsabilizar quando necessário. Mas que nunca faça o São Paulo esquecer por que ele existe.

 

O São Paulo nasceu para vencer dentro do campo.

 

Que a política faça o seu trabalho. Mas que nunca seja maior do que o futebol.

 

Salvem o Tricolor Paulista.


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